Os algoritmos das redes sociais não te conhecem por completo, você também não!

Por mais confuso que possa parecer o título, gostaria de discutir aqui o tema dos algoritmos de redes sociais, conectando-o ao tema do autoconhecimento.

O Instagram é complexo

Temos a sensação de que construímos nosso feed tijolo por tijolo, recomendando sempre os Reels e anúncios que são do que realmente gostamos naquele momento. Entretanto, algumas experiências escapam do algoritmo e até mesmo de você.

O Instagram é fantástico em termos de analisar as intenções dos usuários. Certo dia, estava mexendo com anúncios da Meta e consegui observar diversos marcadores de interesses. Por exemplo, existe a possibilidade de mostrar anúncios para:

  • Pessoas que possuem experiência em viagens internacionais;
  • Quem tem interesse em saúde e bem-estar ou em atividade física;
  • E até mesmo para quem usa um celular antigo.
Como é seu algoritmo | o que ele mostra muito pra você?

As redes sociais sabem uma porção de você

Lembrando: redes sociais são empresas comerciais e buscam lucro. O custo de armazenar seus interesses converte-se em lucro quando você fica 30 minutos a mais assistindo aos Reels, porque a rede te recomendou conteúdos dos quais provavelmente você vai gostar.

Armazenar sinais de interesse em compras também é informação valiosa para anunciantes. Você, que vive comprando produtos de baixo valor na Shopee, deve receber muitos anúncios nesse estilo porque você clica.

Então, seria muito caro armazenar informações adicionais que não têm relação com seus interesses reais, e algumas esquisitices das pessoas não dariam nenhum lucro para as empresas. Apesar de ser uma ferramenta fantástica, que entende bem seu comportamento de consumidor, somos sujeitos mais complexos que qualquer dispositivo de informática.

Mas por que eu não me conheço?

Assim como o Instagram, você pode entender seus interesses, parte do seu comportamento, modo de se vestir e muito mais. Porém, o que está por trás disso não é completamente acessível à consciência.

Nem tudo é capaz de ser consciente. Por exemplo: por que repetimos coisas que nos fazem mal? Sabemos que não é bacana, mas mesmo assim aquilo volta a insistir.

Freud desenvolveu no final do século XIX a teoria do inconsciente, e é a partir dessa premissa que estamos conversando aqui: nossos impulsos e comportamentos são construídos a partir do inconsciente.

Esse termo técnico, "inconsciente", daria pano para muita conversa, porque apresenta bastante nuance e muitas teorias. Mas o que eu entendo é que, conforme vamos crescendo, as palavras dos outros ao redor direcionadas a nós vão construindo nosso corpo, nossos modos de ver o mundo e de pensar. Acabamos esquecendo essas marcas, mas fomos formados nesse molde, e ele segue empurrando o corpo a fazer exatamente aquilo que aprendemos.

É uma linguagem. Assim como aprendi que a palavra "casa" tem a fonética c-a-s-a e não preciso mais pensar nisso para ler ou falar, também aprendi maneiras de sentir e reagir que hoje funcionam sozinhas, sem passar pela consciência.

Por isso, trago aqui a reflexão de que não nos conhecemos por completo. Nem o Instagram, nem seu amigo, nem ninguém. Conhecemos características e repetições de comportamento, mas as engrenagens por trás disso talvez sejam mais complexas de entender.

Em psicoterapia com percurso em psicanálise, esse aspecto do inconsciente é levado muito em consideração na mudança dos sujeitos.

Obrigado por ler até aqui. É uma reflexão que trago, tentando não ditar regras ou direções prontas, mas apenas criar questionamentos. O que você acha disso?

Gustavo Lüdtke da Silva

Psicólogo • CRP 07/46487

Psicólogo clínico com atuação em Santa Cruz do Sul e atendimento online. Escreve sobre saúde mental, processos subjetivos e os impactos da tecnologia e do comportamento na contemporaneidade.